sábado, 18 de abril de 2015

O fado e o vinho

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Era uma vez um saco de caspa. Era uma vez uma arrastadeira. Era uma vez. Era uma vez um país. Uma pátria. Sol e mar e fado e vinho tinto. Era uma vez as bolas de ouro e de outro. Depois era uma vez o bebedolas e drogadito que mata a filha, porque é coitadinho e está desempregado. Quando não aparece um Manel Palito, qual el-dom Sebastião da Beira Alta, foragido e aparecido numa manhã de nevoeiro e a cheirar a fumo, o povo não sossega, nem a guarda nem a televisão. O circo chega à cidade montar as aberrações que alimentam as emoções deste manso povo embalado no fado e no vinho.
Ai o vinho!... O vinho de autor e engenho, arquitecto e designer, enólogo e gastrólogo. O vinho de luxo e luxúria, para inglês ver e degustar, vendido a preço de ouro. Um bem transaccionável que nos vai fazer ricos (http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2079297 ). Pelo menos vai deixar-me mais feliz. Mas não o vinho gourmet. Eu sou um gajo simples e satisfaço-me com a zurrapa com que os milhões de compatriotas animam o sangue e os dias azedos e pobres. Enquanto a Sãozinha vai à feira bebericar golinhos de ouro tinto e premonições de crescimento económico, o cidadão comum enterra as suas economias no elixir tinto, traçado e martelado com o chico-espertismo do zé da adega da esquina.
Ai o fado!... O património fado que se vai vender gourmet a Angola a preços de saldo (http://www.ionline.pt/artigos/mais-espectaculos/precos-concerto-mariza-deixam-angolanos-chocados ), enquanto os meninos do Huambo por lá vão cheirando cola e chulé dos seus pés nus. Enquanto canta o fado, o cidadão aventa uma foda sorrateira na puta mais sorrateira, sim, porque o cidadão é respeitável, tem mulher e filhos na faculdade. Mas por falar em faculdade, também por lá os há, os cidadãos respeitáveis, que também aventam fodas compulsivas no vão de escadas (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1518726&seccao=Sul ). Talvez o filho do senhor fado-foda-vinho tinto prossiga o mesmo fado, esperemos que não, mas o que é isso do destino. É tarde. O senhor cidadão respeitável chega a casa transpirado de sexo e percevejos e vinho, canta o fado e dá uma sova na mulher. A mulher cala e canta o fado. Era uma vez um país que batia na mulher e medrou.  

Fiscalidade cô-de-rosa

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Desde Fevereiro passado que tenho que pagar 10 tostões por cada saco trazido para casa. Tudo bem, já se sabia há um ano pela boca do ministro do ambiente e dos escaravelhos. É a fiscalidade cô-de-rosa, para cobrir as mazelas ambientais do plástico sobre o ciclo de vida dos passarinhos e das flores. Os plásticos representam 11% da capitação actual de lixo humanóide, isto é por cada 10 kg de lixarada que faz um humano, mais de 1 kg é de plástico (fonte: Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, 2011). Mas ora que o grande pragmático merdolas deste traste ambiental se esqueceu do resto... Então não é que o ministrolóide não inclui na sua fiscalidade sobre as tetas de plástico das porcalhonas das suas acessoras? Foda-se, ou há colhões ou não! O que não pode ser é o pobre a pagar pelo rico. O pobre vai ao supermercado, paga IVA, paga o saco, paga o produto a 250 % do custo grossista, e ainda apresenta o cartão poupa-mais para contribuir para o inventário fiscal. Já o rico manda a criada à mercearia gourmet, deixa o fiado na conta para depois (que, por sinal, é expressa e legalmente proibida) e recebe as contas em saco de papel kraft, esse bem inesgotável que os nossos benfeitores das corporações de pasta de papel nos proporcionam a partir dos malvados dos eucaliptos. Ámen. Viva o papel, abaixo o plástico!
O que o ministrolóide economista nos quer fazer ver até não deixa de ser nobre: que empacotar a sarda numa camisa de Vénus de látex tem os seus gastos ambientais. Ao menos fosse de papel, que saía mais barato ao estado ter mais crias contribuintes. Uma medida nada utópica e bem exequível seria a seguinte: criar um sistema de retorno de plástico, à semelhança do que já houve (e ainda existe de forma moribunda) para o vidro. Ao entregar na junta de freguesia 10 kg de plástico recebe um voucher para 10 sacos de plástico (um total de 200 g) para usufruir na mercearia do costume. Digam lá que não era razoável.