Era uma vez um saco de caspa. Era uma vez uma arrastadeira.
Era uma vez. Era uma vez um país. Uma pátria. Sol e mar e fado e vinho tinto.
Era uma vez as bolas de ouro e de outro. Depois era uma vez o bebedolas e
drogadito que mata a filha, porque é coitadinho e está desempregado. Quando não
aparece um Manel Palito, qual el-dom Sebastião da Beira Alta, foragido e
aparecido numa manhã de nevoeiro e a cheirar a fumo, o povo não sossega, nem a
guarda nem a televisão. O circo chega à cidade montar as aberrações que
alimentam as emoções deste manso povo embalado no fado e no vinho.
Ai o vinho!... O vinho de autor e engenho, arquitecto e
designer, enólogo e gastrólogo. O vinho de luxo e luxúria, para inglês ver e
degustar, vendido a preço de ouro. Um bem transaccionável que nos vai fazer
ricos (http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2079297
). Pelo menos vai deixar-me mais feliz. Mas não o vinho gourmet. Eu sou um gajo
simples e satisfaço-me com a zurrapa com que os milhões de compatriotas animam
o sangue e os dias azedos e pobres. Enquanto a Sãozinha vai à feira bebericar
golinhos de ouro tinto e premonições de crescimento económico, o cidadão comum
enterra as suas economias no elixir tinto, traçado e martelado com o
chico-espertismo do zé da adega da esquina.
Ai o fado!... O património fado que se vai vender gourmet a
Angola a preços de saldo (http://www.ionline.pt/artigos/mais-espectaculos/precos-concerto-mariza-deixam-angolanos-chocados
), enquanto os meninos do Huambo por lá vão cheirando cola e chulé dos seus pés
nus. Enquanto canta o fado, o cidadão aventa uma foda sorrateira na puta mais
sorrateira, sim, porque o cidadão é respeitável, tem mulher e filhos na
faculdade. Mas por falar em faculdade, também por lá os há, os cidadãos
respeitáveis, que também aventam fodas compulsivas no vão de escadas (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1518726&seccao=Sul
). Talvez o filho do senhor fado-foda-vinho tinto prossiga o mesmo fado,
esperemos que não, mas o que é isso do destino. É tarde. O senhor cidadão
respeitável chega a casa transpirado de sexo e percevejos e vinho, canta o fado
e dá uma sova na mulher. A mulher cala e canta o fado. Era uma vez um país que batia
na mulher e medrou.